quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Um Filme da Minha Vida" - Os Dias da Rádio (Radio Days) - Woody Allen (pela professora Isabel Xavier)


O blogue do Cineclube da Escola Secundária de Raul Proença está de parabéns! Damos hoje início à publicação de textos, da autoria de professores, alunos, funcionários ou encarregados de educação, sobre filmes que, de alguma maneira, tenham marcado a sua vida. O nosso muito obrigado à professora Isabel Xavier, por ter aceitado ser a primeira, e a todos os futuros colaboradores.

Os Dias da Rádio (Radio Days)

A narrativa está cargo de Woody Allen, voz em off, que no filme é uma criança, filho de um dos casais que constituem a família alargada (avós, pais, tios, filhos, primos), na qual se centra um dos níveis da acção: o dos ouvintes (receptores) da rádio; o outro nível é constituído pelos bastidores da própria rádio, pelos seus protagonistas (emissores). Não se pense que um destes níveis se destaca pela influência da rádio na respectiva existência. Na verdade, as personagens comungam de uma mesma condição: as suas vidas organizam-se em função da rádio, tendo a rádio (e o rádio enquanto objecto) como cenário e núcleo central das peripécias que vão ocorrendo.

Não há propriamente uma história contada ao longo deste filme e esse é um dos seus encantos. Há personagens, caricaturas, vozes; há lugares, ambientes, atmosferas; há ocasiões, situações, circunstâncias; entre elas, nexos (afectivos?) e, no centro de tudo, a presença tutelar, aglutinadora, fundamental, da rádio.

Rádio que transmite música, notícias, reportagens, entrevistas, novelas, concursos, relatos desportivos; que promove gostos, modas, estilos musicais, músicos, cantores, jornalistas, heróis, modelos de comportamento, assimilados e fielmente copiados, pelas mulheres, pelos homens, pelas crianças, pelas famílias, por todos.

A narrativa faz-se em torno de situações aparentemente dispersas, que vão adquirindo significado à medida que se desenrola a acção. Há uma inteligência fundamental que as complementa, que as liga, e tudo se explica e resulta no riso feliz da compreensão, misturado de muita ternura e cumplicidade.

Destaco apenas uma situação de entre tantas que mereceriam igual destaque. A família é judia e vive num bairro maioritariamente judeu. Ao sábado, cumprindo as regras religiosas, os seus membros jejuam e não ouvem rádio. Os vizinhos que sendo judeus, são ateus e marxistas, não faziam uma coisa nem outra. Afrontados pela falta de respeito dessa atitude, agravada pelo facto de ouvirem a rádio muito alta e todos, afinal, a terem que ouvir também, decidem enviar o tio a casa dos vizinhos para os chamar à razão. O tio, não só se demora muito mais tempo do que seria previsível, como notoriamente não cumpre o objectivo, visto que a música continua e o churrasco também.

Quando, finalmente, o tio regressa, todos o questionam, ansiosos, sobre o que se tinha passado. Ele afirma, entre outras coisas: “A religião é o ópio do povo!”. Ou seja, tudo se tinha invertido e ele é que fora convencido, citando Marx, aderindo à conduta dos vizinhos em vez de os dissuadir. Comera tanto que fica mal disposto e tem que ir para o hospital. Todos lhe dizem que é castigo divino.

É um filme que vale a pena ver. Mesmo.

- Isabel Xavier -

Trailer do filme:


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