quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Um Filme da Minha Vida" - O Labirinto Do Fauno, de Guillermo Del Toro (pela aluna Catarina Pereira - 11.º AV2)


Mais uma vez, publicamos um texto da autoria de um aluno. Como professor destes jovens, registo com agrado estas pequenas aventuras pelo universo do cinema. Obrigado, Catarina!

Escrito e realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, e galardoado com três Óscares, O Labirinto do Fauno (2006) é um filme que mistura a fantasia e a dura realidade do fascismo em Espanha, após a vitória do General Franco.

Durante todo o filme, seguimos a personagem principal, Ofélia, uma menina de olhos brilhantes e muita imaginação, que é obrigada a mudar completamente de ambiente familiar ao ir morar com a sua mãe e o novo padrasto, o Capitão Vidal. Nesta película, passamos da fantasia à realidade, e de volta à fantasia, tão rapidamente que, por vezes, parece que as histórias se baralham, isto porque, ao mesmo tempo que vemos Ofélia ser atraída para um mundo fantástico (onde existem insectos que se transformam em fadas, faunos e magia) vemos também a realidade espanhola nos anos 40 como o mundo dos “crescidos”. A mesma menina que é uma princesa renascida é também a enteada de um maléfico capitão fascista.

Este filme foi realizado com recurso a efeitos gerados por computador, porém, o que o torna especial é, sem dúvida, a caracterização, o facto de ser totalmente falado em espanhol, as cores cativantes e as texturas, aliados a uma banda sonora perfeita que parece interpretar os sentimentos das personagens e torná-los mais claros para que possam mais facilmente ser sentidos pelo espectador.

O realizador del Toro conseguiu transformar esta história num pesado conto de fadas que tem de ser levado a sério. E para os verdadeiros amantes da fantasia este é o critério mais importante. Após a visualização do que considero ser uma obra-prima cinematográfica, sentimos a imensidão e, no entanto, não parece de mais. É exactamente a quantidade certa de fantasia, horror, realidade e inocência misturado da maneira mais indicada. É subtil e, ao mesmo tempo, uma experiência violenta que não se esquece tão rapidamente.

Trailer do filme:

segunda-feira, 24 de maio de 2010

27 de Maio - O Rapaz do Pijama às Riscas


Vamos encerrar as actividades, neste ano lectivo, com o filme O Rapaz do Pijama às Riscas, de Mark Herman. Trata-se da adaptação cinematográfica do best-seller do autor irlandês John Boyne (o livro já vendeu mais de cinco milhões de cópias em todo o mundo).

Nenhum ciclo sobre a Segunda Guerra Mundial estaria completo sem que se abordasse a questão do Holocausto. Ultimamente, e um pouco por todo o mundo, muitas são as vozes que se têm feito ouvir contra aquilo que parece ser uma tentativa de ignorar a existência do flagelo que atingiu a Europa nas décadas de 30 e 40 do século XX.

Quando Hitler chegou ao poder na Alemanha, tinha como um dos principais objectivos “limpar” o seu país da influência dos judeus. Através da sua máquina de propaganda (dominada pelo sinistro Goebbels), convenceu a maioria dos habitantes que seria preciso expurgar a Alemanha dessa raça que ele considerava inferior. Rapidamente, e através da sua política de terror, se apropriou dos bens de milhares de pessoas e obrigou muitas outras ao exílio. As que ficaram, foram perseguidas e enviadas para os campos de concentração, juntamente com dissidentes políticos, homossexuais, ciganos e negros. Procedia-se, assim, a uma limpeza étnica, sustentada no ideal nazi e na convicção da superioridade da raça ariana.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, a influência nazi estendeu-se a muitas outras nações europeias, como a Holanda, a Bélgica, a França, a Polónia, a Jugoslávia ou a União Soviética, e os judeus foram colocados em guetos, perseguidos, presos, torturados ou enviados para Auschwitz, Bergen-Belsen ou Treblinka, entre outros locais de morte.

Quando, a partir de 1944, os exércitos aliados descobriram os campos de concentração (o primeiro foi o de Majdanek, em 23 de Julho), o mundo estremeceu. A humanidade conhecia um dos seus momentos mais dilacerantes. Nunca se pensara que o horror atingisse aquela dimensão. A partir dessa época, ganhou força uma mensagem: “Para que não se repita!”.

Desde muito cedo que o cinema se interessou pela dramática situação dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Ficaram famosos filmes como A Lista de Schindler, de Steven Spielberg ou A Vida é Bela, de Roberto Benigni (ambos vencedores de variadíssimos prémios). Na televisão mereceu amplos aplausos a série Holocausto, produzida nos anos 70 e com actores de renome no elenco, como Meryl Streep ou James Woods.

O Rapaz do Pijama às Riscas é mais uma incursão, por sinal muito pujante, nesse universo construído na dor e no sofrimento de milhares de pessoas. Conta uma história de amizade entre duas crianças que escolhem o caminho da amizade, ainda que entre elas exista arame farpado e um horror que não entendem.

Resumo do argumento: Quando a família de um oficial alemão se muda para perto de um campo de concentração, a sua vida altera-se radicalmente. Limitado no seu mundo de brincadeiras, Bruno, o filho do oficial, resolve aventurar-se além do bosque que rodeia a sua casa. Um dia, encontra uma criança da sua idade que usa um estranho pijama às riscas…

Trailer do filme:

quinta-feira, 20 de maio de 2010

"Um Filme da Minha Vida" - Juno, de Jason Reitman (pela aluna Leonor Rodrigues - 11.º AV1)


É com muito gosto que publicamos mais um texto da autoria de um aluno, no caso, a Leonor Rodrigues (a quem agradecemos, sentidamente), na nossa rubrica "Um Filme da Minha Vida". Aproveitamos para desafiar todos os alunos a seguirem-lhe o exemplo...

Hoje em dia não há adolescente que não tenha sido obrigado a assistir a uma palestra sobre a sexualidade. Mas parece que ninguém avisou Juno MacGuff (Ellen Page), uma jovem de 16 anos, que numa tarde aborrecida decide, finalmente, fazer sexo com o melhor amigo Bleeker (Michael Cera), acabando por engravidar.

Juno é uma personagem irreverente, confiante e decidida que, depois de uma tentativa de aborto falhada, entra numa penosa mas cómica aventura de nove meses onde vai ser confrontada com realidades “muito para além do seu grau de maturidade.”

Tendo sido nomeado para várias categorias, “Juno” ganhou o Óscar de Melhor Argumento em 2008, graças a Diablo Cody (“As Tara de Tara” – série televisiva) que é, quanto a mim, um génio na desmistificação de taboos e na construção de realidades absurdas mas, ainda assim, plausíveis, que fazem as suas (poucas) obras indispensáveis.

Não é possível, também, falar deste filme sem mencionar as fantásticas interpretações de Ellen Page (nomeada para o Óscar de Melhor Actriz) e Michael Cera, que trouxeram algo juvenil e inteligente a uma situação que é, normalmente, retratada como desesperante e dramática: a gravidez na adolescência; bem como a fantástica banda sonora que inclui nomes como Cat Power, Kimya Dawson, Belle & Sebastian e Barry Louis Polisar.

Como nota final, o conselho: Vejam o filme… Não só vale a pena, como também não se podem queixar, tal como Juno, de não terem sido avisados!

Trailer do filme:

domingo, 16 de maio de 2010

20 de Maio - A Queda - Hitler e o Fim do Terceiro Reich

Se, no primeiro filme do actual ciclo, abordámos a tentativa de assassínio de Adolf Hitler, perpetrada por um grupo de cidadãos alemães que não se revia na ideologia nazi, vamos agora interessar-nos pelos últimos dias da vida daquele que é muitas vezes considerado um dos maiores “monstros” da História.

A maior curiosidade de A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (Der Untergang, no original) prende-se com o facto de ter sido realizado na Alemanha, por Oliver Hirschbiegel, revelando uma visão muito mais coerente e próxima da realidade do que as inúmeras produções realizadas noutros países (nomeadamente, nos Estados Unidos) sobre o declínio da ditadura nazi e os últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Tratando-se de um filme recente (estreou em 2004), verificamos que os sessenta anos que entretanto passaram sobre a época retratada (e, com eles, tantos acontecimentos marcantes para a História da Europa), permitiram uma abordagem despudorada e neutra, não incidindo, propositadamente, sobre os actos monstruosos de Hitler, mas sobre a pessoa do ditador, em todas as suas incoerências e fragilidades.

A história do filme acompanha a visão da secretária pessoal de Hitler, alguém que acompanhou o Fuhrer nos últimos dias do Terceiro Reich, como testemunha privilegiada do seu declínio. O actor Bruno Ganz (sem dúvida, uma das maiores figuras do cinema alemão da actualidade) concentra sobre si muita da atenção dos espectadores, conseguindo uma interpretação brilhante, tanto nos momentos de quietude como nos de exaltação feroz.

Este filme foi nomeado para os Óscares da Academia, na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, em 2005, tendo perdido a estatueta para Mar Adentro, de Alejandro Aménabar.

Como curiosidade, referir que, nos últimos tempos, no YouTube, popular sítio na Internet, apareceram inúmeras rábulas realizadas a partir de cenas deste filme, com legendas inventadas (aproveitando o desconhecimento da língua alemã da maioria dos utilizadores), que se referem tanto a acontecimentos mundanos como a actos políticos recentes.

Resumo do argumento: Estamos em Berlim, nos últimos dias de Abril do ano de 1945. A capital alemã encontra-se cercada pelos exércitos aliados e, no seu bunker, alheio ao desastre iminente, Hitler agarra-se desesperadamente a tudo o que lhe dê alguma esperança de, ainda, vencer a guerra...

Trailer do filme:

segunda-feira, 10 de maio de 2010

13 de Maio - Tolerância de Ponto


Em virtude de ter sido concedida "tolerância de ponto" à função pública na próxima quinta-feira, dia 13 de Maio, no âmbito da visita a Portugal de Bento XVI, não se realizará a habitual sessão. Voltaremos para a semana com mais uma película sobre a Segunda Guerra Mundial.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

6 de Maio - Operação Valquíria


Porque o nosso ciclo de Maio pretende celebrar os 65 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, decidimos seleccionar uma película cujo argumento é baseado em factos reais, ocorridos em 1944, e que relata a conspiração que pretendeu terminar com o sofrimento de milhões de pessoas.

A Operação Valquíria foi levada a cabo por oficiais alemães em Julho de 1944. O plano era arriscado: assassinar Adolf Hitler e assim salvar o que ainda poderia ser salvo da barbárie no Mundo, na Europa e, particularmente, na Alemanha.

Saído do sucesso dos dois primeiros tomos de X-Men e de Superman Returns (filmes que adaptam bandas desenhadas em que a ficção futurista e os efeitos especiais são lei), o realizador Bryan Singer poderia, numa primeira instância, não ser a pessoa certa para levar a bom porto um projecto centrado num acontecimento da já distante Segunda Guerra Mundial. No entanto, a aposta dos produtores revelou-se certeira e Operação Valquíria (Valkyrie, no original) resulta numa boa combinação de filme de guerra e de thriller político, prendendo os espectadores à narrativa, mesmo quando sabem, antecipadamente, o seu desfecho.

Para desempenhar o papel do Coronel Claus Schenk Graf von Stauffenberg, um aristocrata católico, o escolhido foi Tom Cruise, um actor que tanto provoca grandes paixões como manifestações de repúdio. Neste filme em particular, Cruise consegue manter a sobriedade necessária e compõe uma figura simultaneamente trágica e humana, revelando possuir mais talento que aquele que normalmente a Academia lhe dedica. Contra si, terá, e tê-lo-á sempre, a ideia pré-concebida, e naturalmente errada, de que as suas limitações artísticas suplantarão as suas capacidades dramáticas.

Resumo do argumento: Em Julho de 1944, a Alemanha nazi encontra-se numa situação difícil. Depois do desembarque dos aliados na Normandia e na Itália, da derrota no Norte de África e do desastre iminente na frente oriental, Hitler vê-se forçado a implementar medidas extremas para controlar a oposição ao seu regime totalitarista e desumano. Mas os inimigos do Reich não estão só fora do seu país. Na sombra, um grupo de oficiais alemães planeia um golpe arrojado: assassinar o ditador e apressar o fim da Segunda Guerra Mundial…

Trailer do filme:

domingo, 2 de maio de 2010

Maio - 65 anos do fim da Segunda Guerra Mundial (Europa)

Quando, em momentos de crise como aquele em que vivemos, perspectivamos o futuro com algum receio torna-se obrigatório fazer um exercício colectivo de memória para relembrarmos épocas na história da humanidade em que o medo, a guerra, a fome, a tortura e toda a espécie de provações que atingiram os nossos antepassados não foram suficientes para matar a Esperança. Tenhamos, pois, isso bem presente no nosso espírito.

Em Maio, vamos assinalar, no nosso núcleo, os 65 anos do final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Este conflito teve início em Setembro de 1939 (com a invasão germânica da Polónia) e só terminou em Agosto de 1945 (com a rendição incondicional do Japão após as bombas atómicas largadas em Hiroshima e Nagasaki). Na Europa, o dia 7 de Maio de 1945 (uma semana depois do suicídio de Hitler) constituiu o cessar de todas as hostilidades. Para trás ficava um pesadelo jamais vivido no Velho Continente. 17 milhões de soviéticos, 6 milhões de judeus, 5,5 milhões de alemães, 4 milhões de polacos, 1,6 milhões de jugoslavos e, ainda, centenas de milhares de cidadãos de cada um dos países europeus que se envolveram na guerra (ingleses, franceses, holandeses, italianos, belgas, noruegueses, austríacos, gregos, finlandeses…) pereceram neste holocausto.

Desde os primeiros sinais da ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha que a indústria cinematográfica se interessou por esta temática. Ao longo de décadas, foram realizados milhares de filmes que exploraram todos os assuntos e acontecimentos relevantes e revelaram inúmeros pontos de vista, abrindo caminho a um maior conhecimento sobre esta época tão negra e tão decisiva. É um lugar-comum mas não nos custa nada afirmá-lo: “Para que nunca mais se repita!”.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"Um Filme da Minha Vida" - Sacanas Sem Lei (Inglourious Basterds), de Quentin Tarantino (por João Fernandes, aluno do 11.º CT5)


É com enorme satisfação que "postamos" um texto, por sinal excelente, da autoria de um aluno da nossa escola na rubrica Um Filme da Minha Vida. Os nossos agradecimentos ao João Fernandes e o desejo sincero de continuação de uma óptima cinefilia.

Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino

Obra-Prima

“Era uma vez… numa França ocupada por Nazis.” É neste cenário que o brilhante e experiente contador de histórias Quentin Tarantino apresenta a sua mais recente longa-metragem. Tarantino, que até agora só tinha mencionado a Europa nos seus filmes, decide estrear o seu estilo no ponto mais violento de toda a história do continente: a Segunda Guerra Mundial.

Se a Europa está no seu auge de violência, também está esta fita entre todas da pequena (mas rica) colecção de Tarantino. O realizador (também argumentista, actor e produtor) já conhecido por usar a violência de forma exagerada, de arrancar orelhas (Cães Danados), passando por um tiro inesperado provocado por uma lomba (Pulp Fiction), ou os vários banhos de sangue e desmembramentos (Kill Bill), até à mais recente colisão a alta velocidade (À Prova de Morte), já tinha entrado na área do banal. Kill Bill e À Prova de Morte são a prova de que a sua violência cinematográfica tomou um caminho que começou no chocante e original e acabou no esperado, cómico, e até “uau! Que fixe!”. Em Sacanas Sem Lei, Tarantino não só volta às origens como também a torna mais real (com a excepção dos últimos minutos da cena do cinema). São poucas as pessoas que a determinada altura não olham para o lado ou tapam a cara.

A história (e antes de mais é preciso dizer que toda a fita é ficção) de duas horas e meia é contada em cinco capítulos e cenas enormes com um único tema: vingança. A vingança de Judeus sobre o Regime Nazi, por parte de uma jovem rapariga que perdeu a família e de um grupo de soldados conhecidos como os Bastardos. No entanto, tanto a rapariga como os bastardos têm planos diferentes para o mesmo propósito, na mesma data, no mesmo local e nunca se chegam a juntar. A única coisa que os une é o “Caçador de judeus” Standartfuhrer Hans Landa (Christoph Waltz), que tem como missão assegurar que a estreia de um filme de propaganda (onde estará Adolf Hitler) corre sem problemas. Papel que valeu a Waltz o prémio de melhor actor em Cannes e o Óscar de Melhor Actor Secundário, o que de todo foi merecido.

É impossível fazer uma crítica a este filme e passar ao lado das línguas faladas na fita: Inglês, Francês, Alemão e Italiano. Esta variedade que traz mais sumo ao filme não é usada de forma simples. A pronúncia e o conhecimento de cada personagem sobre cada uma das línguas é de extrema importância para toda a história do filme e, apesar de não saber falar Alemão, Francês e Italiano, fiquei com a impressão que todos os actores conseguiram imitar cada pronúncia sem falhas. Uma nota para aqueles que sabem uma das línguas faladas no filme: não se esqueçam de olhar para as legendas mal deixem de perceber o que estão a ouvir.

Já há algum tempo que não via um filme que me deixasse agarrado à cadeira até ao fim. Não me deixou a pedir por mais, pois tenho perfeita noção que poderia estragar aquilo que está perfeito, mas deixou-me a pedir para repetir: “Sabes uma coisa, Utivich? Acho que esta pode ser a minha obra-prima.” Sem dúvida!

Trailer do filme:

segunda-feira, 26 de abril de 2010

29 de Abril - Um Amor Inevitável

O filme desta semana possui um sem-número de qualidades mas a sua maior virtude é, inquestionavelmente, o saber colocar-nos no centro de uma pergunta com a qual somos confrontados, mais cedo ou mais tarde, durante a vida: será possível que um homem e uma mulher conseguem ser amigos sem que as regras da atracção façam a sua estranha dança?

Bem, geralmente, e simplificando, a premissa comum a todas as críticas que já se escreveram a propósito deste filme coloca a pergunta noutro nível, resumindo-a ao factor sexual. Na nossa modesta opinião, esta ideia rouba algum encanto ao filme e retira predicados ao extraordinário argumento de Nora Ephron (nomeado para o Óscar e vencedor de múltiplos prémios, com destaque para o Golden Globe).

Mais do que uma comédia de situação ou de personagens, Um Amor Inevitável (When Harry Met Sally) revitalizou a comédia romântica no cinema, conduzindo-nos até ao ambiente dos anos de ouro de Hollywood (no que a este género diz respeito) e iniciando um ciclo novo que ainda hoje dá os seus frutos e mantém um público fiel.

Os desempenhos de Billy Crystal e Meg Ryan (em papéis que os lançaram no cinema, ele como “comediante que não ri” e ela como uma “namoradinha da América”) contribuem significativamente para um clima romântico que “está lá mas parece não estar”, algo só ao alcance de uma realização segura e fluida (a cargo de Rob Reiner, o antigo actor de All In The Family, onde representava o sofredor genro do irascível e inesquecível Archie Bunker).

Resumo do argumento: Harry e Sally conhecem-se quando o acaso os junta numa viagem de automóvel de Chicago para Nova Iorque. Pelo caminho, apercebem-se que não gostam um do outro, uma vez que possuem visões diferentes do amor. Nos anos seguintes, os seus caminhos cruzam-se algumas vezes, sempre de forma imprevista, e a animosidade entre ambos parece eternizar-se. No entanto, algo vai aproximá-los.

Trailer do filme:

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Um Filme da Minha Vida" - Os Dias da Rádio (Radio Days) - Woody Allen (pela professora Isabel Xavier)


O blogue do Cineclube da Escola Secundária de Raul Proença está de parabéns! Damos hoje início à publicação de textos, da autoria de professores, alunos, funcionários ou encarregados de educação, sobre filmes que, de alguma maneira, tenham marcado a sua vida. O nosso muito obrigado à professora Isabel Xavier, por ter aceitado ser a primeira, e a todos os futuros colaboradores.

Os Dias da Rádio (Radio Days)

A narrativa está cargo de Woody Allen, voz em off, que no filme é uma criança, filho de um dos casais que constituem a família alargada (avós, pais, tios, filhos, primos), na qual se centra um dos níveis da acção: o dos ouvintes (receptores) da rádio; o outro nível é constituído pelos bastidores da própria rádio, pelos seus protagonistas (emissores). Não se pense que um destes níveis se destaca pela influência da rádio na respectiva existência. Na verdade, as personagens comungam de uma mesma condição: as suas vidas organizam-se em função da rádio, tendo a rádio (e o rádio enquanto objecto) como cenário e núcleo central das peripécias que vão ocorrendo.

Não há propriamente uma história contada ao longo deste filme e esse é um dos seus encantos. Há personagens, caricaturas, vozes; há lugares, ambientes, atmosferas; há ocasiões, situações, circunstâncias; entre elas, nexos (afectivos?) e, no centro de tudo, a presença tutelar, aglutinadora, fundamental, da rádio.

Rádio que transmite música, notícias, reportagens, entrevistas, novelas, concursos, relatos desportivos; que promove gostos, modas, estilos musicais, músicos, cantores, jornalistas, heróis, modelos de comportamento, assimilados e fielmente copiados, pelas mulheres, pelos homens, pelas crianças, pelas famílias, por todos.

A narrativa faz-se em torno de situações aparentemente dispersas, que vão adquirindo significado à medida que se desenrola a acção. Há uma inteligência fundamental que as complementa, que as liga, e tudo se explica e resulta no riso feliz da compreensão, misturado de muita ternura e cumplicidade.

Destaco apenas uma situação de entre tantas que mereceriam igual destaque. A família é judia e vive num bairro maioritariamente judeu. Ao sábado, cumprindo as regras religiosas, os seus membros jejuam e não ouvem rádio. Os vizinhos que sendo judeus, são ateus e marxistas, não faziam uma coisa nem outra. Afrontados pela falta de respeito dessa atitude, agravada pelo facto de ouvirem a rádio muito alta e todos, afinal, a terem que ouvir também, decidem enviar o tio a casa dos vizinhos para os chamar à razão. O tio, não só se demora muito mais tempo do que seria previsível, como notoriamente não cumpre o objectivo, visto que a música continua e o churrasco também.

Quando, finalmente, o tio regressa, todos o questionam, ansiosos, sobre o que se tinha passado. Ele afirma, entre outras coisas: “A religião é o ópio do povo!”. Ou seja, tudo se tinha invertido e ele é que fora convencido, citando Marx, aderindo à conduta dos vizinhos em vez de os dissuadir. Comera tanto que fica mal disposto e tem que ir para o hospital. Todos lhe dizem que é castigo divino.

É um filme que vale a pena ver. Mesmo.

- Isabel Xavier -

Trailer do filme:


segunda-feira, 19 de abril de 2010

22 de Abril - Alta Fidelidade

Alta Fidelidade (High Fidelity, no original) é um dos muitos filmes que resulta da adaptação para cinema de um best-seller contemporâneo. O romance original, da autoria de Nick Hornby e publicado em 1995, obteve um sucesso estrondoso, catapultando o escritor inglês para a fama e provocando uma corrida acesa pelos direitos de adaptação da história.

O filme, de Stephen Frears, realizador inglês de créditos firmados, serve-nos uma agradável combinação de humor, amor e… música pop, algo muito comum ao universo ficcional de Hornby.

A acção desenrola-se em Chicago (uma perda face à Londres do romance), na última década do século XX e centra-se na vida do protagonista (personagem desempenhada na perfeição por John Cusack), um eterno adolescente que vive para namorar e para trabalhar na sua loja de discos de vinil.

O registo é, propositadamente, confessional (a personagem fala directamente para a câmara), colocando os espectadores como testemunhas perfeitas dos problemas que vão afectando a vida de Rob Gordon: a sua perplexidade face ao universo feminino, a relação profissional com os seus dois empregados e a necessidade, quase imperiosa, de agradar a todos.

Uma das muitas situações imaginativas da história prende-se com a ideia, demonstrada pelas personagens, de se elaborar um Top 5 para as mais variadas situações e ocorrências, como, por exemplo: o Top 5 das relações falhadas, o Top 5 das bandas que deveriam desaparecer da face da Terra, o Top 5 das canções que abrem o lado A dos discos de música pop, o Top 5 das músicas que abordam a temática da morte…

Tudo isto é servido com muita música, elegância e humor, destacando-se a prestação de John Cusack e de Jack Black (numa personagem inesquecivelmente bizarra), numa película que tem muitos e variados motivos para constituir um filme de culto.

Resumo do argumento: Rob Gordon é o feliz dono de uma loja de discos de vinil. Feliz? Talvez nem tanto… a sua namorada acaba de lhe comunicar que a relação entre ambos chegou ao fim! Rob empreende então uma viagem introspectiva, procurando descobrir as verdadeiras razões que fazem dele um eterno azarado no amor.

Trailer do filme:

segunda-feira, 12 de abril de 2010

15 de Abril - O Fabuloso Destino de Amélie

A primeira comédia romântica de Abril é o belíssimo, sob variadíssimos pontos de vista, O Fabuloso Destino de Amélie (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain, no original), realizado por Jean-Pierre Jeunet.

Na última década, é difícil encontrarmos um filme europeu que tenha suscitado tanto entusiasmo quer na crítica especializada quer no público. Para conseguir tal feito, os ingredientes usados foram muitos, destacando-se o extraordinário ritmo narrativo, uma actriz (Audrei Tautou) em estado de graça, uma fotografia de excepção e um quase inigualável optimismo (que atravessa todo o filme e transborda para a alma dos espectadores).

É impossível ver Amélie sem um contínuo sorriso estampado no rosto e sem que nos apeteça ajudar todos os que nos rodeiam, nada pedindo em troca. São filmes como este que nos ensinam a viver.

Resumo do argumento: Amélie Poulain é uma jovem com muita imaginação que trabalha num café parisiense. Um dia, um acaso vai mudar a sua vida e ela passa a dedicar-se, através de pequenos gestos e atitudes, ao sublime prazer de trazer a felicidade às pessoas que a rodeiam. Apesar da sua bondade e altruísmo, falta-lhe… o amor. Irá encontrá-lo da forma mais inesperada, e divertida, possível.

Trailer (internacional) do filme:



domingo, 11 de abril de 2010

Abril - Humor + Amor

Tal como prometido, o Núcleo de Cinema da Escola Secundária de Raul Proença vai dedicar o mês de Abril a uma fórmula matemática: Humor + Amor = Comédia Romântica.

Desde que o cinema se afirmou como uma arte distinta que a aplicação desta fórmula tem contribuído para cativar milhões de espectadores. Não é motivo para grande incredulidade porque, afinal, a raça humana é a única que consegue rir e amar ao mesmo tempo...

Para a história do cinema, ficaram as grandes comédias românticas dos anos 30 e 40, produções de Hollywood que sempre conheceram enorme popularidade em todo o mundo. Em Portugal, a chamada “época de ouro do cinema português” construiu-se à custa de filmes como A Canção de Lisboa ou O Pátio das Cantigas, em que figuras de bairro, apaixonadas e apaixonantes, se envolviam em histórias mirabolantes, conseguindo provocar o riso e, também, alguns suspiros entre a multidão que enchia os cinemas.

A expressão “par romântico” ganhou raízes e continua a fazer sentido hoje em dia, quando qualquer um de nós é capaz de perceber se entre o casal apaixonado existe a famosa “química”. Se ela não existir, é certo e sabido que o filme está condenado ao fracasso. Por outro lado, se o ecrã vibrar de emoção, temos a certeza que aquela dupla terá o seu futuro assegurado.

Em época de crise e em plena primavera (finalmente!), temos, quase obrigatoriamente, de seleccionar películas que, tal como no tempo da “outra senhora”, nos transportem para um mundo de ilusão, onde o humor e o amor ainda fazem sentido…

segunda-feira, 22 de março de 2010

25 de Março - Desafio Total - Total Recall


A terceira “visita” ao mundo perturbador e fantástico de Marte é Desafio Total (Total Recall, no original), um filme realizado por Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone como protagonistas.

Trata-se da adaptação cinematográfica do conto We Can Remember It For You Wholesale, da autoria de Philip K. Dick, um dos mais conceituados escritores de ficção científica do século XX. Entre outras incursões pelas obras de Dick, como A Scanner Darkly ou Minority Report - Relatório Minoritário (de Steven Speilberg), conta-se um dos filmes de maior culto da actualidade: Blade Runner Perigo Iminente, realizado por Ridley Scott.

Teoricamente, qualquer uma destas películas possui maior qualidade artística que Desafio Total, no entanto, esta mereceu o nosso interesse, ultrapassando a nossa natural desconfiança pelo trabalho de Schwarzenegger, porque a acção do filme decorre, na sua maior parte, no planeta vermelho.

Misturando a ficção científica, servida num belo prato de efeitos especiais, com a adrenalina de um filme de acção, Desafio Total transporta-nos até uma espécie de universo paralelo, onde a memória pode corresponder às recordações de outras pessoas (uma temática semelhante à de Blade Runner). O problema é que a realidade e a ficção podem constituir uma mistura explosiva… em Marte!

Trailer do filme:

domingo, 14 de março de 2010

18 de Março - Guerra dos Mundos


O segundo filme a merecer a nossa atenção neste mês de Março é um filme de Steven Spielberg que constitui a mais recente adaptação de A Guerra dos Mundos, romance da autoria daquele que é considerado o “pai da ficção científica”, H. G. Wells, e publicado em 1898.

Spielberg revelou que sempre se sentira fascinado pela grande agitação provocada pela adaptação radiofónica da história de Wells em 1938. Nesse ano, um jovem de 23 anos conseguiu a proeza de colocar milhares de pessoas em pânico, simulando, via reportagem radiofónica, uma invasão marciana dos Estados Unidos. Esse jovem chamava-se Orson Welles (a semelhança de apelido com o escritor inglês é apenas uma saborosa coincidência) e viria a revelar-se um dos mais brilhantes e inovadores realizadores de todos os tempos (o seu filme de estreia, Citizen Kane, é muitas vezes eleito o melhor filme de sempre).

Contando com a colaboração de Tom Cruise e de um dos mais solicitados argumentistas de Hollywood, David Koepp, Spielberg transporta a acção da original Londres para New Jersey e dá ao protagonista uma profissão banal e uma família desfeita. Com isso, vai explorando, ao longo da acção, não só o terror vivido face à destruição perpetrada pela invasão alienígena como a relação, levada ao limite face às circunstâncias extraordinárias, entre pai e filhos.

De salientar que estamos no contraponto, essencial segundo o realizador, à versão cor-de-rosa transmitida por ET – O Extraterrestre. Desta vez, os alienígenas são mesmo maus e não querem nem telefonar nem voltar para casa. Eles estão para ficar!

Trailer do filme:


domingo, 7 de março de 2010

Março - Marte


Março foi, durante muito tempo, o primeiro mês do calendário, marcando o início da Primavera e a simbologia da regeneração da vida. Também por isso, e porque vivemos em tempos difíceis, decidimos homenagear o planeta que carrega o nome do deus romano da guerra.

Marte é o quarto “calhau a contar do Sol” e aquele que, no nosso sistema solar, tem provocado maior temor na humanidade, talvez por culpa da sua cor (vermelha), quiçá porque nos habituámos a pensar nos marcianos como seres terríveis que sempre desejaram conquistar o nosso bonito planeta azul.

A ciência já demonstrou há muito tempo que não há vida inteligente em Marte. Esse facto não inibiu os escritores de ficção científica, ao longo dos últimos séculos, de colocar, por vezes, o mistério e o fascínio pelo desconhecido de mãos dadas com o puro delírio.

A mais famosa história criada a propósito de Marte é, sem dúvida, A Guerra dos Mundos, um romance de H. G. Wells, autor inglês dotado de uma criatividade extraordinária. Essa imaginação deixou um legado visionário e riquíssimo em obras como A Máquina do Tempo, A Ilha do Dr. Moreau ou O Homem Invisível, todas elas já adaptadas, inúmeras vezes, ao cinema.

Iremos começar a nossa viagem até Marte visitando a extraordinária (em muitos sentidos) comédia de Tim Burton, realizada em 1996: Marte Ataca!

Trata-se de uma reflexão bem-disposta sobre o medo do desconhecido mas também sobre a ignorância e o obscurantismo, ao mesmo tempo que se afirma como uma homenagem aos filmes de ficção científica dos anos 50 (realizados em plena guerra fria quando tudo era uma metáfora para o perigo comunista e qualquer realizador, actor ou argumentista podia ser um espião).

A principal inspiração, no entanto, chega-nos daquele que foi considerado o pior realizador de todos os tempos, o excêntrico (no mau sentido) Edward D. Wood Jr., do qual alguns alunos já tiveram o prazer de ouvir falar. No seu incontornável monumento ao mau gosto cinematográfico, chamado Plano 9 dos Vampiros Zombie, Wood consegue o enorme feito de destruir todo e qualquer vestígio de credibilidade argumentativa, algo que, para o espectador mais desatento, pode ser uma característica no filme de Burton. É, bem pelo contrário, uma opção deliberada e arrebatadoramente hilariante!

Marte Ataca! conta com a participação de grandes estrelas de Hollywood, como Jack Nicholson, Glenn Close, Sarah Jessica Parker, Pierce Brosnan, Annette Bening, Danny De Vito, Natalie Portman e… o ícone kitsch Tom Jones (no papel de… Tom Jones).

Trailer do filme: